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quinta-feira, 29 de agosto de 2024

1º/1º GT realiza treinamento em Santa Catarina

 

Até sexta-feira, 30 de agosto, a Base Aérea de Florianópolis (BAFL) está recebendo o Exercício Técnico de Busca e Salvamento (EXETEC SAR), com a presença do 1º Esquadrão do 1º Grupo de Transporte (1º/1º GT), Unidade Aérea da Aviação de Transporte da Força Aérea Brasileira, que tem sua sede na Base Aérea do Galeão/RJ. Uma aeronave KC-390 Millennium e cerca de 40 militares participam da manobra. O objetivo principal do treinamento é a capacitação e requalificação anual das tripulações do Esquadrão, incluindo Pilotos, Mestres de Carga e Observadores Aéreos, em missões de Busca e Salvamento (SAR, do inglês Search And Rescue), uma das muitas atribuições da Aviação de Transporte da FAB. O exercício compreende as atividades de busca sobre áreas marítimas e terrestres, além do lançamento de botes e fardos. O adestramento é fundamental para atuar em situações reais. Recentemente, a Força Aérea Brasileira participou ativamente da chamada Operação Taquari 2, em apoio ao povo gaúcho, atingido pela catástrofe climática sem precedentes que se abateu sobre o Rio Grande do Sul. Entre as muitas ações de destaque, estava o ressuprimento aéreo, realizado em locais sem a possibilidade de pouso de aeronaves. Ali se fizeram presentes os aviões de transporte da FAB, lançando alimentos, medicamentos, água e outros insumos importantes para a sobrevivência das pessoas em terra. Nesse tipo de tarefa, em que o socorro que vem do céu representa a diferença entre vida ou morte, é a precisão no lançamento das cargas que garante o sucesso da missão e isso só é alcançado com muita dedicação e prática. Por este motivo, treinamentos como este que está acontecendo na capital catarinense são tão importantes.

Embora o 1º/1º GT esteja sediado na cidade do Rio de Janeiro, a escolha por Florianópolis para a realização do exercício, está relacionada ao conjunto de cenários encontrados no entorno da Ilha de Santa Catarina e em áreas próximas, distantes a poucos minutos de voo, reunindo as condições perfeitas para a prática das atividades de Busca e Salvamento. Isso propicia uma substancial economia de combustível e maior tempo útil e efetividade nos treinamentos. Além disso, o apoio logístico prestado pela Base Aérea de Florianópolis é de fundamental importância, tanto para as tripulações quanto para a aeronave. Soma-se ainda, o espaço aéreo da capital catarinense, pouco saturado de aeronaves, se comparado com outras regiões do país, garantido fluidez nas operações e aumentando a segurança de voo. 


Todas as fotos: Marcelo Lobo da Silva/Aviação em Floripa

O treinamento consiste na realização de lançamentos de botes e fardos, além de buscas sobre mar e terra. As duas primeiras atividades acontecem, respectivamente, sobre as águas da Baía Sul e junto à pista auxiliar 03/21 do Aeroporto Internacional Hercílio Luz. Por sua vez, os voos de busca sobre o mar, são realizados em um espaço previamente delimitado, ao largo da Ilha de Santa Catarina. Já as buscas em terra, acontecem no norte do Estado, próximo às cidades de Jaraguá do Sul e Barra Velha. As ações são executadas a baixa altura (em torno dos 1 mil pés ou menos, cerca de 300 metros), exigindo atenção contínua e destreza por parte da tripulação. Com o foco na Segurança de Voo, exercícios dessa natureza, contam com o apoio do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), através da emissão de Notificações Aeronáuticas (NOTAM), informando aos usuários do espaço aéreo na região, sobre a presença da aeronave, além dos locais e altitudes em que a mesma estará operando, durante o período do treinamento. Da mesma forma, as áreas destinadas para as manobras são definidas com antecedência, sendo de conhecimento prévio de todos os aeronavegantes.

A imagem acima mostra uma típica missão que está sendo conduzida pelo KC-390, com o lançamento de botes e fardos em áreas próximas da Base Aérea de Florianópolis e, composta ainda, pela realização de buscas sobre área terrestre, no norte do Estado. Fonte: FlightRadar24.com



Na sequência, de cima para baixo, as áreas utilizadas pela o lançamento de botes, de fardos e para buscas sobre o mar. Fonte: https://aisweb.decea.mil.br/?i=aerodromos&codigo=SBFL#notam

Busca sobre área marítima. Fonte: FlightRadar24.com

Vista geral do compartimento de cargas do KC-390.

Para as missões de Busca e Salvamento, existe uma porta especial com uma grande bolha de observação, permitindo um aumento significativo do campo de visão em torno da aeronave.

Detalhe da bolha de observação.

Visão por dentro da bolha para o campo traseiro.

Visão por dentro da bolha para o campo dianteiro.

A Embraer desenvolveu um engenhoso sistema de troca das portas em pleno voo, no qual a porta padrão (pressurizada) desliza para cima e uma outra, própria para a Busca e Salvamento, é encaixada em seu lugar. Essa funcionalidade, permite que o KC-390 voe em altitude de cruzeiro e somente ao atingir a área de buscas, desça de nível, para então, trocar a porta. Isso resulta em significativa economia de combustível, que pode ser revertida em mais tempo para a missão.

Detalhe do assento do Observador SAR. São dois, localizados em cada uma das portas laterais traseiras. Eles são utilizados especificamente para missões de Busca e Salvamento, juntamente com a porta. Mais à frente na fuselagem, existem duas janelas, que também podem receber assentos, totalizando quatro postos de observação.

Esses são os simulacros de botes que estão sendo usados no treinamento, na foto, dispostos sobre a rampa traseira. O equipamento real é composto por estas cinco peças, sendo dois botes que se inflam em contato com a água, dispostos nas pontas. No meio, vão três kits de sobrevivência, contendo água, alimentos e outros itens, além de um rádio-localizador. No exercício, o interior é preenchido com madeira, simulando o peso real do conjunto. Após serem lançados na Baía Sul, uma equipe recolhe os materiais para uso posterior.

Em ocorrências que envolvem acidentes aeronáuticos, naufrágios, embarcações à deriva, situações de calamidade pública, populações isoladas ou qualquer eventualidade em que não seja possível o pouso de um helicóptero ou avião, a técnica mais utilizada, consiste no lançamento de botes ou fardos, contendo água, alimentos, materiais de primeiros socorros, entre outros, garantindo a sobrevivência das pessoas até a chegada das equipes de resgate. Essa operação pode ser feita de forma manual ou automatizada. Nesta última, os computadores a bordo calculam todos os parâmetros para que qualquer tipo de carga que esteja no interior da aeronave (incluindo volumosos pallets e até mesmo veículos de combate), atinja o solo com a máxima precisão no ponto determinado, independente da altitude. Para fins de capacitação dos novos integrantes do 1º/1º GT, durante o exercício, os lançamentos estão sendo feitos no modo manual, sem a ajuda da eletrônica.

O conjunto de fotos a seguir, mostra como funciona o procedimento. No treinamento  em Florianópolis, a operação é feita junto à pista auxiliar 03/21 do Aeroporto Internacional Hercílio Luz. No solo, uma equipe demarca com um sinalizador de fumaça, o local onde a carga deve cair. A aeronave se aproxima, voando a baixa altura (cerca de 300 pés, ou 100 m), com a rampa traseira aberta e em atitude de voo cabrado (levemente inclinada para cima), de forma a facilitar a soltura da carga. O fardo é simulado por uma bombona plástica, presa a um paraquedas e com o tamanho e o peso aproximados do equipamento real. Elas são lançadas uma a uma, de forma a maximizar o treinamento. Em uma situação de salvamento, os fardos poderiam ser liberados em sequência, em uma única passagem. Junto à rampa traseira, existe um dispositivo luminoso que informa aos responsáveis pelo lançamento, o momento exato em que a carga deve deixar a aeronave, de acordo com a sua altitude e velocidade. Importante dizer que essas operações também pode ocorrer no período noturno, nesse caso, com o auxílio de granadas iluminativas presas a paraquedas. A prática constante, a expertise das tripulações da FAB nesse tipo de atividade, aliado à tecnologia, faz com que o índice de sucesso em "bingar o alvo" seja altíssimo.







A aeronave que está sendo empregada no treinamento em Florianópolis é o KC-390 Millennium com a matrícula FAB 2855, um dois dois aviões desse modelo que compõem atualmente a frota do 1ª/1º GT. A outra Unidade Aérea que opera com o Millennium é o 1ª Grupo de Transporte de Tropa (1º GTT), com sede em Anápolis/GO. Até o presente momento, a FAB conta com seis KC-390 em operação, de uma encomenda total de dezenove unidades (veja infográfico mais abaixo). Mesmo com poucos exemplares em serviço, graças à excelência do projeto do avião e ao trabalho zeloso das equipes de manutenção, o índice de disponibilidade é altíssimo. Todos os dias, a qualquer hora, com qualquer tempo, os KC-390 Millennium estão voando pelos quatro cantos do Brasil e até mesmo, mundo afora, cumprindo suas missões. Desde que entrou em serviço com a FAB em 2019, o avião vem se consolidando como uma ferramenta essencial tanto no transporte logístico militar, como em missões de caráter humanitário. Destaca-se a participação durante a pandemia, no transporte de usinas de oxigénio para a região Norte e no transporte de mantimentos, roupas, colchões, médicos e voluntários para o Rio Grande do Sul, em apoio à Operação Taquari 2. Somente nas asas do Esquadrão Gordo, foram aproximadamente duzentas de toneladas de donativos entregues. No exato momento em que você lê esta matéria, o KC-390 está empenhado no combate aos incêndios e queimadas que se alastram pelo país, especialmente na região do Pantanal e no interior paulista.

Os mais atentos irão observar na imagem acima, o Emblema do 1º GTT estampado na fuselagem do FAB 2855. Embora exista uma divisão dos aviões entre os dois Esquadrões, situações que afastem um KC-390 da linha de voo por um longo período, como manutenções programadas, por exemplo, podem resultar no uso compartilhado ou "empréstimo" das aeronaves, de forma a manter a operacionalidade de ambas as Unidades no cumprimento das suas missões.


Projetado e fabricado pela Embraer como um substituto do lendário quadrimotor C-130 Hércules, o KC-390 Millennium é o maior avião militar fabricado no Hemisfério Sul. Juntamente com o caça F-39 Gripen, forma os pilares estratégicos da Força Aérea Brasileira para as próximas décadas. Em comparação ao C-130, além de muito mais moderno, transporta mais carga a maiores distâncias, voando mais alto e mais rápido. É uma aeronave bimotora a jato, de asa alta e cauda em T, preparada para operação em qualquer tipo de pista e equipada com sistemas e aviônicos de última geração. A rampa traseira e as portas laterais, dão acesso a um amplo compartimento interno, capaz de ser configurado rapidamente para diversos tipos de tarefas e cargas, além da capacidade de reabastecer e ser reabastecida em voo. Todas essas funcionalidades vêm chamando a atenção de um crescente número de Forças Aéreas mundo afora, justamente como uma opção ao C-130. Além do Brasil, Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, República Tcheca e Coreia do Sul, estão entre os países que já operam ou confirmaram a aquisição de exemplares do KC-390. Outros potenciais compradores vêm demonstrando interesse no avião ou encontram-se no momento, em negociação com a Embraer. Para quem quiser conhecer mais detalhes sobre a aeronave, o site Aviação em Floripa publicou no ano passado, uma extensa matéria sobre o KC-390, que pode ser acessada através do banner abaixo.

Clique sobre a imagem acima, para acessar a matéria.

Vista geral do KC-390 no pátio da Base Aérea de Florianópolis. A altura do chão até o topo da cauda é de 11,84 m, equivalente a um prédio de quatro andares. Esta é a maior aeronave militar fabricada no Hemisfério Sul do planeta, um orgulho para a Indústria Aeronáutica brasileira.


Detalhe da lança, contendo a sonda para reabastecimento em voo.





Desde o final do ano passado, o KC-390 Millennium assumiu integralmente todas as missões no 1º/1º GT. Até aquele momento, as atividades eram divididas com os três C-130M Hércules que ainda restavam em serviço. O Esquadrão Gordo, como o 1º/1º GT também é conhecido, operou com diferentes versões do Hércules durante quase seis décadas ininterruptas, aeronave que é considerada um verdadeiro ícone da aviação mundial e o cargueiro militar mais fabricado e utilizado em todos os tempos. O curioso nome da Unidade Aérea, remonta ao início do período de utilização do C-130 na FAB, em meados da década de 60 e tem sua origem associada ao tamanho avantajado e fuselagem larga do Hércules, características comuns às aeronaves de transporte. Com a passagem do bastão, o KC-390 Millennium herdou não apenas o código-rádio, mas principalmente, a responsabilidade de substituir uma lenda e vem cumprindo a tarefa com louvor. "No Gelo, no Revo, na Busca", o lema do 1º/1º GT sintetiza muito bem o leque de atividades executadas pela Unidade Aérea. Nascido com o caráter multimissão em seu DNA, não poderia haver substituto melhor para o venerável Hércules. Vida longa ao Esquadrão Gordo e ao KC-390 Millennium.


quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Conhecendo o KC-390 Millennium

 


Recentemente, durante o Exercício Técnico de Busca e Salvamento (EXTEC SAR) do 1º Esquadrão do 1º Grupo de Transporte (1º/1º GT) em Florianópolis, o site Aviação em Floripa teve a oportunidade em conhecer de perto o maior avião militar projetado e produzido no Brasil, o Embraer KC-390 Millennium. Para registrar este momento, preparamos esta matéria, na qual vamos trazer aos nossos leitores, um pouco da história do desenvolvimento do avião, suas funcionalidades e muitas outras informações, além de uma grande quantidade de imagens exclusivas, mostrando em detalhes, as características internas e externas desta fantástica aeronave, um orgulho da Indústria Aeronáutica nacional e da Força Aérea Brasileira. Seja você também, bem-vindo(a) a bordo do KC-390 Millennium!


Nasce o gigante brasileiro

Em meados da primeira década deste milênio, a Embraer iniciou estudos para o desenvolvimento de uma aeronave de transporte tático de porte médio com propulsão a jato. O mercado militar para aviões deste tipo, dominado pelas várias versões do Lockheed C-130 Hércules (com muitos exemplares próximos de encerrar sua vida operacional), apresentava a médio prazo, uma perspectiva bastante promissora para que o cargueiro brasileiro se tornasse uma opção atraente para as diversas Forças Aéreas mundo afora. Assim, em abril de 2007, o projeto da aeronave foi oficialmente anunciado pela Embraer, durante a Feira de produtos de Defesa LAAD (Latin America Aero & Defense, atual LAAD Defense & Security), no Rio de Janeiro/RJ, com o avião recebendo a designação KC-390 Millennium. Nesta mesma época, já vislumbrando a retirada de operação de sua frota de C-130 Hércules, a Força Aérea Brasileira (FAB) havia lançado o Programa KC-X e não tardou para que fosse estabelecida uma parceria entre a fabricante de aviões brasileira e a FAB, que passou a colaborar diretamente na adequação do projeto, de acordo com os requisitos técnicos do Programa KC-X, ficando acertada uma encomenda de 28 exemplares pela FAB.

Em primeiro plano, O C-130M Hércules, que durante muitos anos, foi a espinha dorsal da Aviação de Transporte da FAB. Agora o bastão está sendo passado para o KC-390 Millennium, ao fundo.

O refinamento do projeto fez surgir uma aeronave versátil, capaz de realizar uma ampla gama de missões, como Transporte de Tropas, Lançamento de cargas e Paraquedistas, Transporte Logístico, Reabastecimento em Voo, Evacuação Médica, Busca e Salvamento e Combate a Incêndios Florestais. Complementando os investimentos da Embraer e da FAB, o desenvolvimento do KC-390 contou com o apoio do Governo Federal através de recursos oriundos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Além do Brasil, Indústrias Aeronáuticas de outros três países juntaram-se ao programa, sendo responsáveis pela fabricação de componentes e peças estruturais, a saber: a argentina FAdeA, construção dos spoilers (superfícies móveis de controle de sustentação na asa), as portas do trem de pouso do nariz, a porta da rampa, as carenagens dos flaps, o cone de cauda e o armário eletrônico; as portuguesas OGMA e EEA, responsáveis por fornecer os painéis da fuselagem central, as carenagens dos trens de pouso (sponsons), as portas dos trens de pouso principais e os profundores e; por fim, a Aero Vodochody (República Tcheca), que produz parte da fuselagem traseira, as portas para paraquedistas e tripulação, a porta de emergência e escotilhas, a rampa de carga e o bordo de ataque fixo.

Divisão de construção do KC-390 Millennium. Fonte: COPAC/FAB

Algumas das empresas fornecedoras de equipamentos e parceiras do projeto KC-390. Fonte: Embraer

Após cinco anos de desenvolvimento, os trabalhos para integração de todos os sistemas da aeronave e simulações de voo foram concluídos. O contrato entre a Embraer e a Força Aérea Brasileira foi assinado em 21 de maio de 2014 e previa uma quantidade original de 28 exemplares para a FAB. Dois protótipos foram construídos para o programa de desenvolvimento, montados na Unidade da Embraer Defesa e Segurança em Gavião Peixoto, no interior do Estado de São Paulo. O primeiro protótipo, recebeu a matrícula PT-ZNF, foi apresentado oficialmente em 21 de outubro de 2014 e voou pela primeira vez em 3 de fevereiro de 2015. A montagem do segundo protótipo (PT-ZNJ) foi finalizada em março de 2016 e o avião fez seu voo inaugural no dia 26 de abril do mesmo ano. Em 5 de maio de 2018, durante a campanha de ensaios e certificações, um dos protótipos (PT-ZNF) se acidentou em uma saída de pista enquanto realizava testes de solo, sem vítimas, entretanto, a aeronave sofreu severos danos estruturais. Em substituição ao PT-ZNF, o programa de ensaios ganhou o reforço do PT-ZNG (terceiro KC-390 a sair da linha de montagem). Finalmente, cerca de dez anos após o início do programa, em Solenidade na Base Aérea de Anápolis/GO, a Força Aérea Brasileira recebeu oficialmente, no dia 13 de dezembro de 2019, a primeira unidade do KC-390, com a Matrícula FAB 2853, destinada ao 1° Grupo de Transporte de Tropa, o Esquadrão Zeus.

Cerimônia de apresentação (Roll-out) do primeiro exemplar construído e um dos protótipos de testes, com a matrícula PT-ZNF, em Gavião Peixoto/SP. Foto: Folhapress



Provando seu valor


Desde que entrou em serviço com a Força Aérea Brasileira, o KC-390 Millennium vem demonstrando suas capacidades e comprovando a excelência do projeto e não demorou para que esses predicados fossem colocados à prova. Em janeiro de 2021, durante o auge da crise de Covid em Manaus, a aeronave foi uma das responsáveis pelo transporte de cilindros e usinas de oxigênio, uma complexa e arriscada operação, por se tratar de carga pressurizada. Ano passado, logo após o começo da guerra entre Rússia e Ucrânia, um KC-390 partiu rumo à Varsóvia na Polônia, com a finalidade de resgatar e repatriar um grupo de brasileiros, além de refugiados de outras nacionalidades. Recentemente, a aeronave foi certificada para o transporte do helicóptero H-60 Black Hawk operado pela FAB e do veículo lançador de foguetes do Sistema ASTROS, do Exército Brasileiro (EB), pesando cerca de 22 toneladas. Digno de nota também, foi a participação de uma aeronave KC-390 no Exercício "Culminating", um treinamento em conjunto com o Exército Americano, Exército Brasileiro (EB) e Força Aérea Americana, com o objetivo de preparar militares e tripulantes para missões de emprego em operações aeroterrestres. Realizado nos Estados Unidos, entre os meses de janeiro e fevereiro de 2021, o exercício marcou a estreia do avião brasileiro em treinamentos operacionais internacionais e serviu para atestar as qualidades da aeronave, impressionando a todos por suas características de voo e capacidades de emprego.

Transporte de usina de oxigênio para Manaus/AM. Foto: FAB

Teste para o transporte de viatura AV-LMU Astros. Foto: FAB

No momento, seis KC-390 Millennium encontram-se em uso com a FAB em duas Unidades Aéreas, quatro com o 1° GTT (Anápolis/GO) e dois com o 1°/1° GT (Galeão/RJ). Da encomenda inicial de 28 aviões, ao longo do tempo, o número de exemplares sofreu alterações, passando para 22, depois 14 e finalmente ficando estabelecida a quantidade de 19 unidades. De acordo com o cronograma atual (veja infográfico abaixo), a taxa de entregas das 13 aeronaves restantes, segue em um ritmo de um ou dois aviões por ano, estendendo-se até 2034. O mais recente entregue à Força Aérea Brasileira, com a Matrícula FAB 2858 (em junho deste ano), foi o primeiro KC-390 com a certificação chamada de FOC (Full Operational Capability, ou Capacidade Operacional Completa), atestando o cumprimento do conjunto de requisitos técnicos e a plena condição de realizar todas as missões para as quais o avião foi projetado. A partir de agora, os demais exemplares já em operação serão atualizados para este mesmo patamar.




O infográfico acima mostra algumas maneiras como o compartimento de cargas do KC-390 pode ser configurado. Com comprimento máximo de 18,5 metros (com a rampa fechada) e altura máxima de 3,2 metros, somada à capacidade nominal para 26 toneladas, a aeronave pode transportar uma grande variedade de tipos de veículos militares e blindados. Todo o piso é composto por um sistema intercambiável de roletes e ganchos para a movimentação e fixação das cargas, respectivamente. O Mestre de Cargas (Loadmaster) conta com uma estação de trabalho própria, permitindo a partir dela, o gerenciamento das atividades de embarque, desembarque e lançamento das cargas, assim como sua correta distribuição ao longo do compartimento. Para as tarefas de transporte de passageiros, tropas, paraquedistas ou evacuação aeromédica, o interior do avião pode ser rapidamente configurado de diferentes maneiras, recebendo assentos extras ou macas. Para a missão de Reabastecimento em Voo (REVO), o KC-390 dispõe de dois pods ou casulos Cobham 912E WARP (Wing Air Refueling Pod, ou Casulo de Asa para Reabastecimento Aéreo). Dispostos nas extremidades das asas, o sistema é composto por uma mangueira retrátil com uma cesta estabilizadora na ponta, capaz de transferir combustível da própria aeronave ou de tanques extras levados no compartimento de cargas. Um grande diferencial do KC-390 é que, além de fornecer combustível, ele também pode ser reabastecido em voo, dotando a FAB de uma capacidade inédita em suas aeronaves de transporte. Para isso, o avião conta com uma lança na parte superior da fuselagem dianteira, contendo na ponta, a sonda de reabastecimento. Isso permite por exemplo, que o KC-390 decole com sua carga máxima e posteriormente seja reabastecido em voo, ampliando substancialmente seu alcance, equiparando seu desempenho ao de aeronaves maiores, de transporte estratégico.

Caças F-5EM Tiger II da FAB sendo reabastecidos por um KC-390. Foto: FAB


Clique sobre o banner acima para assistir ao vídeo. Fonte: Embraer

A última funcionalidade testada e certificada no KC-390 é o Combate a Incêndio Florestal. Para tal, a aeronave emprega o sistema MAFFS II (Modular Airborne Fire Fighting System, ou Sistema Modular Aerotransportado de Combate ao Fogo). O equipamento conta com um tubo que projeta água pela porta traseira esquerda do avião, podendo descarregar em poucos segundos, até 3.000 galões de água (aproximadamente 11.300 litros), com ou sem a utilização de produtos químicos que retardam a ação do fogo. Uma vantagem deste sistema é a possibilidade de manter a aeronave pressurizada, ou seja, sem comprometer a performance do KC-390, sendo mais eficiente que o MAFFS de primeira geração, empregado pelo C-130M Hércules. O equipamento pode ser rapidamente instalado ou removido do compartimento de carga da aeronave a partir de seu próprio trailer. 

Sistema MAFFS II em ação, durante a Campanha de Certificação. Foto: FAB


Clique sobre o banner acima para assistir ao vídeo. Fonte: Embraer


O KC-390 Millennium em detalhes


O Exercício EXTEC SAR que aconteceu em Florianópolis de 8 a 17 de agosto proporcionou uma excelente oportunidade para conhecer de perto o KC-390 Millennium. A aeronave fotografada foi o FAB 2857, pertencente ao 1º Esquadrão do 1º Grupo de Transporte com sede na Base Aérea do Galeão/RJ. Na ocasião, o compartimento de carga estava configurado para a realização da missão de Busca e Salvamento (SAR), contando a bordo com o kit SAR e com os assentos rebatíveis nas laterais. Acompanhe a partir de agora, o conjunto de imagens que o site Aviação em Floripa selecionou para ilustrar esta matéria.




Vista geral do FAB 2857 no pátio da Base Aérea de Florianópolis.


Rampa traseira aberta. O KC-390 dispõe de dois estabilizadores hidráulicos retráteis, chamados de struts, posicionados na parte inferior da fuselagem, logo atrás do trem de pouso principal. Esse dispositivo permite que o avião mantenha-se estabilizado no solo, durante o embarque de cargas mais pesadas pela rampa.

Painel de controle da rampa traseira.


Vista interna das duas portas laterais traseiras. Elas abrem para cima e são utilizadas principalmente para o lançamento enganchado de paraquedistas. Em missões de Busca e Salvamento, são substituídas por outro modelo de porta, dotada de uma janela maior e com uma bolha de observação.

O piso do KC-390 é totalmente intercambiável, podendo ser facilmente alternado para o uso de roletes (para o deslizamento e posicionamento das cargas) ou em configuração plana. Ao longo de todo o assoalho, existem ganchos para a fixação das cargas.

Assentos rebatíveis dispostos nas laterais da aeronave em toda a extensão do compartimento de cargas.

O fundo do compartimento de cargas possui duas janelas, nas quais podem ser fixados assentos, servindo como postos de observação secundários em missões de Busca e Salvamento. À direita na foto, ao lado da escada de acesso à escotilha de emergência, pode se ver a porta de acesso ao banheiro da aeronave.

Estação de trabalho do Mestre de Cargas (Loadmaster), dominada por duas telas e comandos que monitoram e controlam a operação das cargas a bordo.

O KC-390 possui uma galley, com pia, geladeira e forno, localizada imediatamente à frente da escada que leva à cabine de comando.

Acessada por uma escada, a cabine de comando encontra-se no deck superior e apresenta uma configuração de aviônicos (instrumentos de voo) totalmente digital, composto por cinco telas de LCD de 15 polegadas e sensíveis ao toque, chamada de Pro Line Fusion Suite, desenvolvida pela Rockwell Collins. As funções ou trocas de páginas são comandadas por dois dispositivos semelhantes e com a mesma função do "mouse", localizados no console central.


Console central e detalhe da manete de potência.

O KC-390 é comandado por sistema de sidestick.

Painel superior (overhead)

Uma característica do KC-390 é a presença de dois HUDs (Head-Up Displays, ou Visor ao Nível dos Olhos) rebatíveis, desenvolvidos pela AEL Sistemas e que projetam à frente dos Pilotos, uma série de informações essenciais ao voo ou dos parâmetros de missão, sem que os mesmos precisem desviar a atenção para o painel de instrumentos.

Além dos assentos dos pilotos, a cabine de comando apresenta ainda um terceiro assento, disposto atrás da posição do Co-Piloto (2P, assento da direita), onde fica a estação do Engenheiro de Voo. É deste local que as missões de Reabastecimento em Voo são realizadas. Da mesma forma, a operação do pod de navegação Litening III é controlada a partir deste posto. Logo atrás, encontram-se duas pequenas camas para o descanso da tripulação em voos de longa duração, com a inferior, podendo ser utilizada como jump seat (assento auxiliar).


Detalhe da cauda em "T", característica das aeronaves de transporte. O KC-390 possui quase 12 metros de altura, equivalente a um prédio de quatro andares.

Detalhe da Designação Militar e da Matrícula.

Vista externa de uma das portas laterais traseira.






Trem de pouso principal e detalhes das carenagens. Todo o conjunto é reforçado e permite a operação em pistas de pouso não pavimentadas.

Detalhe da bequilha.





O KC-390 é equipado com dois motores turbofans International Aero Engines V2500-E5.

Porta principal de acesso para a tripulação.


Detalhe da seção dianteira da fuselagem.

Vista exterior de uma das janelas localizada no fundo do compartimento de carga, acima dela, está instalada uma das quatro antenas RWR (Radar Warning Receiver, ou Receptor de Alerta Radar), pertencente ao sistema de auto-defesa da aeronave. Este dispositivo informa aos Pilotos que o avião está sendo detectado por radares inimigos.

Emblema do 1º/1º GT, estampado na lateral esquerda da fuselagem dianteira.


Detalhes do suporte e do pod de navegação Rafael Litening III, também utilizado na FAB pelo jato de ataque A-1. No caso do KC-390, o conjunto de sensores e câmeras eletro-óticas e infravermelhas, auxilia a navegação precisa em qualquer condição de tempo, de dia ou de noite e permite o acompanhamento de alvos sobre extensas áreas, auxiliando, por exemplo, no trabalho de busca sobre terra e mar. Essas informações chegam no posto do Engenheiro de Voo ou Operador de Sistemas, localizado na cabine de comando do KC-390.


Detalhe da lança e do probe de reabastecimento em voo.


Detalhe do para-brisa frontal e lateral do KC-390, que conferem uma boa visibilidade para os Pilotos, tanto em voo quanto nas operações em solo.

Gostaríamos de agradecer à Força Aérea Brasileira e ao Comando de Preparo, pela autorização em poder acompanhar uma tarde de operações do EXTEC SAR, oportunizando as imagens da aeronave KC-390 Millennium. Agradecimentos também ao Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (CECOMSAER) e à Seção de Comunicação Social da Base Aérea de Florianópolis (SCS/BAFL) pelo apoio para a realização desta matéria.